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Nosso padroeiro

O Pe. Aurélio Canzi simboliza o apostolado entre os migrantes gaúchos que colonizaram as terras do Oeste Catarinense. Líder religioso e comunitário, assistiu ao nascimento de comunidades que transformaram-se posteriormente em municípios. Dentre elas, a então Vila Oeste, hoje nossa amada São Miguel do Oeste.

Filho de José Canzi e de Catarina Giongo Canzi, Aurélio Ângelo nasceu em Garibaldi (RS) em 13 de setembro de 1915. Ingressou no Seminário Menor São José, de Santa Maria (RS) aos 14 anos e foi ordenado presbítero em Maratá (RS) em 17 de dezembro de 1943. Sua vida sacerdotal transcorreu em São Miguel do Oeste, cujo nascimento acompanhou e nele teve participação decisiva.

Em 5 de fevereiro de 1944 foi instalada a Igreja Reitorada de São Miguel Arcanjo, na então Vila Oeste, anexa à Paróquia de Itapiranga, fundação dos jesuítas e colonos alemães gaúchos, e Pe. Aurélio, com menos de 30 anos, foi nomeado vigário paroquial. A capela tinha sido construída pelos colonos em 1943. Com a criação da paróquia São Miguel Arcanjo em 9 de abril de 1950, foi nomeado primeiro pároco, permanecendo no ofício até 1977. O Decreto de criação foi assinado pelo Bispo Prelado de Palmas do Paraná, que atendia a todo o Oeste Catarinense, Dom Carlos Eduardo Sabóia Bandeira de Mello, OFM.

A opção de Pe. Aurélio pelo lugar se deu por sua vontade “de trabalhar com índios” que, naquele período, representavam 50% da população residente na Prelazia. Com a criação da Paróquia de São Miguel Arcanjo, os destinos de Padre Aurélio e dos moradores da região começavam a entrelaçar-se. Antes das empresas de colonização gaúchas lotearem a região, essa era habitada por índios kaigang e por caboclos, muitos deles fugitivos da guerra do Contestado ou de punições em outros Estados.

Bom pastor e guia

A chegada a então Vila Oeste aconteceu em 5 de fevereiro de 1944 e quatro dias depois ali celebrou a missa, pela primeira vez. Foi acolhido pela família Molin, que o hospedou por 18 meses. Nesse meio tempo foi construída a casa paroquial, pelos imigrantes italianos chamada de “casa canônica”. Quando da chegada de Padre Aurélio em Vila Oeste, havia 17 famílias estabelecidas, totalizando 85 moradores, que enfrentavam uma prolongada estiagem. Nas palavras do próprio sacerdote, uma visão nada animadora para quem chegava: “foi preciso ter coragem para permanecer aqui”, escreveu. Aqui desempenhou as funções de padre, conselheiro, professor e médico visitando seus paroquianos, mesmo em lugares quase inacessíveis, atendendo-os sob quaisquer circunstâncias e a qualquer horário que o chamassem. Quando ia a pé ou montado em burro ou cavalo, gostava de sair à noite caminhando pelo mato, pois não havia estradas.

Exercendo o papel de médico estabeleceu a primeira farmácia, receitava remédios que conhecia, internava doentes na casa paroquial. Era muito requisitado para bênçãos de crianças, doentes, bênçãos contra gafanhotos, ratos, tempestades. Não tinha limites na caridade para com os pobres. Conhecia a todos e, aos domingos, citava os que não estavam vindo à Missa. É bom lembrar que de São Miguel do Oeste saíram os municípios de Anchieta, Bandeirante, Barra Bonita, Guaraciaba, Paraíso e Romelândia. Visitava também Mondaí, Dionísio Cerqueira e a paranaense Medianeira. Estafado pelo trabalho, pelas más condições de higiene e alimentação, por vezes retornava doente, ou debilitado.

Suas Missas eram breves: de 20 a 30 minutos, com sermão e tudo. Seu grande cuidado era a catequese das crianças. Gostava de ter um bom grupo de coroinhas, para os quais reservava uma bola de futebol e, no final da Missa, distribuía 200, 500 réis para os que tinham ajudado. Com a construção de estradas, adquiriu um Jeep e, na década de 60, um Opala.

Obras sociais – nova igreja matriz

Ao lado do atendimento da vida paroquial, Pe. Aurélio preocupou-se em promover a saúde e a educação. Em 1950, Pe. Aurélio conseguiu a vinda das Irmãs do Instituto Jesus Maria José para a direção do Hospital Sagrado Coração de Jesus. Ele mesmo comprou e doou o terreno para o hospital com o dinheiro de uma herança. O povo colaborou na construção.

No ano de 1954, a comunidade de São Miguel do Oeste uniu-se ao pároco na busca de solução para um Colégio que atendesse meninos e rapazes. A convite do então Prefeito Olímpio Dal Magro e do Pe. Aurélio, em 25 de fevereiro de 1957, esteve em São Miguel do Oeste o Superior Provincial dos Irmãos Lassalistas, Ir. Agostinho Simão, para tratar da vinda da Congregação. Em acordo com os Irmãos, foi escolhido um terreno de 22.000 m2. No dia 13 de fevereiro de 1958, foi feita a matrícula do primeiro aluno para o curso de admissão ao ginásio: Roberto Luchesi. Estava inaugurado o Colégio La Salle Peperi.

Em 06 de fevereiro de 1959, as Irmãs do Instituto Jesus Maria José passaram a atender ao setor educacional, e iniciaram a construção do Colégio São José. Em 4 de março de 1960, iniciaram as aulas para duas turmas de meninas: uma turma de 1ª série e uma do 5º ano. O Ginásio La Salle Peperi emprestou uma parte do prédio para que as Irmãs pudessem realizar seu trabalho até que o colégio estivesse pronto.

Já em 1950 iniciaram-se as discussões para a construção de uma nova igreja matriz. Anos depois, elaborou-se um projeto grandioso e caro, que pareceu absurdo e impossível. Foram feitas algumas mudanças e o projeto foi apresentado ao bispo Diocesano, D. Wilson Laus Schmidt, que o aprovou: igreja moderna, com quatro grandes arcos formando uma cruz grega. Pe. Danilo Link ficou encarregado de coordenar as obras da construção. Na época, foi uma das grandes obras do estado em volume de material utilizado. No início da década de 80 a nova Igreja foi inaugurada, e é o principal cartão postal de São Miguel do Oeste. Pe. Aurélio ficou contrariado por não ter sido feito o Altar no centro da igreja, conforme o projeto original.

O movimento emancipacionista – São Miguel do Oeste

Com o objetivo de defender os interesses coletivos e promover a criação do distrito, a 21 de agosto de 1949, um grupo de habitantes da povoação e arredores reuniram-se no Salão Paroquial e fundaram a Sociedade Amigos de Vila Oeste. Pe. Aurélio foi o 1º Secretário da Comissão. Em 21 de dezembro de 1949 Vila Oeste tornou-se o 15º Distrito de Chapecó, desmembrado de Mondaí. Em 30 de dezembro de 1953, a Assembléia legislativa criou o município de São Miguel do Oeste. Na primeira eleição, em 3 de outubro de 1954, Pe. Aurélio Canzi foi eleito vereador. Sua liderança era inconteste. Os políticos se reuniam em sua casa para traçarem programas.

Gaúcho – gauchismo e esporte

Padre Aurélio Canzi fazia questão de ser gaúcho e de promover o gauchismo: vestindo batina, bota, bombacha e revólver na cintura, lenço vermelho no pescoço. Em 1956, doou um terreno da igreja para a construção do CTG Porteira Aberta. Por sugestão do próprio padre, o CTG foi batizado de Porteira Aberta. Foi o primeiro a ser registrado em Santa Catarina. O primeiro galpão foi erguido no terreno de 1.500 metros quadrados.

Inaugurado em 11 de janeiro de 1962, o Estádio Padre Aurélio Canzi pertence ao Clube Esportivo Guarani, que foi fundado em 7 de setembro do ano de 1947 pelos colonizadores. O Padre Aurélio foi um dos fundadores nosso querido Bugre do Oeste, e doou o terreno onde hoje situa-se a maior parte do complexo esportivo do clube. É o único estádio do Brasil com nome de padre.

O final de uma rica existência

Em 1976, com apenas 61 anos, se manifestaram com força os sintomas do Mal de Alzheimer: Padre Aurélio passou a rezar a missa em latim, e lentamente ficou impedido para o ministério. Permaneceu em São Miguel do Oeste e contribuiu na construção da capela de São Gotardo, onde celebrou missas enquanto a saúde permitiu. Em 24 de abril de 1976, foi empossado como pároco Pe. Alpídio Magrin.

Pe. Aurélio Ângelo Canzi faleceu em 7 de junho de 1990, às 6h da manhã, quando tinha 75 anos de idade e uma história que se confundia com a Igreja e a comunidade de nossa São Miguel do Oeste. Por sua vontade, seu jazigo está na Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, construída sob sua tutela. A cada dia, dezenas de pessoas comparecem ao local para rezar, refletir e prestar ao sua homenagem ao Padre Aurélio. Muitos ex-votos indicam graças alcançadas. Sua memória permanece viva no povo pelo qual deu a sua vida.

Baseado em pesquisa do Pe. José Artulino Besen

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